É absolutamente unânime que a estrutura condicional desempenha um papel fundamental na preparação do futebolista. Seja um treinador mais analítico ou mais sistémico, dando-lhe preponderância ou atribuindo-lhe consequência de outras estruturas, todos reconhecem a importância do atleta se encontrar em boa forma desportiva e, neste aspeto, a condição física será sempre um dos pilares de um bom atleta. Se por um lado não há evidência direta da relação entre performance atlética e o sucesso da equipa, também é verdade que as ações anaeróbias precedem golos, que a fadiga afeta as ações técnicas e tomada de decisão, que a obtenção de golos aumenta com a duração do jogo ou que a maior parte das lesões ocorrem no final de cada parte.

Os testes de avaliação física podem, portanto, ser um aliado importante do treinador na medida em que permitem aferir marcas de referência, estabelecer comparação entre atletas da equipa e definir uma estrutura de trabalho individual de acordo com os dados alcançados. A literatura apresenta-nos um conjunto de testes de avaliação úteis para futebolistas, desde testes laboratoriais a testes de campo. Neste artigo destacamos o papel dos testes de campo pela sua maior relação às condições específicas de jogo, pelo menor custo envolvido e pela possibilidade de racionalizar tempo, avaliando mais atletas em simultâneo.

O software COACH ID permite ao treinador registar o resultado de cinco testes de avaliação simples mas que podem ser muito úteis na análise individual/coletiva previamente destacada.

 

Yo-Yo Intermittent Recovery Test (IR1 / IR2)

Os dois testes de recuperação intermitente (IR) Yo-Yo avaliam a capacidade de um indivíduo executar repetidamente exercícios intensos. O teste Yo-Yo IR nível 1 (Yo-Yo IR1) centra-se na capacidade de realizar exercícios intermitentes levando a um máximo de ativação do sistema aeróbico, enquanto Yo-Yo IR nível 2 (Yo-Yo IR2) determina a capacidade de um indivíduo de recuperar de um exercício repetido com contribuição do sistema anaeróbico. Normalmente o IR 1 destina-se a atletas pouco treinados ou atletas jovens enquanto o IR 2 se destina a atletas bem treinados. A nível metodológico, a diferença entre os dois testes é a velocidade a que o mesmo inicia e a velocidade de incremento (mais baixas no IR1).

Protocolo

Duas marcas são colocadas a uma distância de 20m entre elas e uma área de descanso medindo 5m é colocada no lado inicial. O atleta deve deslocar-se de uma marca à outra numa velocidade que é determinada pelo ritmo do áudio. A velocidade é regularmente aumentada a cada estágio. O indivíduo deverá alcançar a marca antes do sinal sonoro. O teste deverá ocorrer até o atleta sentir-se incapacitado (fadiga) ou se o mesmo não alcançar duas marcas seguidas.

Relação com o VO2 máx

O VO2 máx (ml/kg/min) é a medida do volume de oxigénio mais elevado que o corpo consome quando se faz exercício e é utilizado para avaliar a condição física global a nível aeróbico. Um VO2máx mais elevado significa que o corpo consegue fornecer aos músculos mais oxigénio, o que pode permitir correr mais rapidamente com níveis de esforço mais elevados. É possível estabelecer uma relação direta entre o resultado do teste Yo-Yo utilizando a seguinte formula

Yo-Yo IR1:

VO2max (mL/min/kg) = IR1 distância (m) x 0.0084 + 36.4

Yo-Yo IR2 test:

VO2max (mL/min/kg) = IR2 distância (m) x 0.0136 + 45.3

 

Material necessário

- Zona de corrida com pelo menos 25 m

- Fita métrica

- Audio Yo-Yo teste

- Marcas no chão

- Folhas de registo

 

T-Test

O T-Teste foi desenvolvido para medir a agilidade dos atletas. Consiste em desempenhar um movimento rápido de corpo inteiro com mudança de velocidade ou direção em resposta a um estímulo. O trabalho de agilidade é,pois, um dos fatores determinantes do desempenho no futebol e ao promover o equilíbrio e a coordenação, os jogadores de futebol serão capazes de se mover mais rápido e mudar de direção mais rapidamente, mantendo o controlo corporal.

Protocolo

Os atletas partem do cone A até ao cone B em linha reta. Em seguida, correm lateralmente para o cone C, que é o lado esquerdo. Depois de tocar o cone C, correm lateralmente para a direita e tocam o cone D. Finalmente, correm novamente para a esquerda, tocam o cone B e voltam para a posição inicial. No final é registado o tempo que o atleta demorou a realizar o percurso.

Material necessário

- Fita métrica

- Cones

- Cronómetro

 

Vertical Jump

Os saltos verticais, normalmente para realizar um duelo aéreo, são uma das ações mais comuns num jogo de futebol e podem marcar a diferença no resultado de um jogo.

O vertical jump é utilizado para medir a potência dos membros inferiores e a classificação (em cm) pode ser registada de duas formas, anotando diretamente a altura do salto (utilizando uma parede ou um vertec) ou o tempo que os pés demoram a contactar de novo o solo (tapete de salto ou um sistema de medição óptica – ex: optojump).

A forma mais simples é sem duvida o registo direto da atura, pelo que apresentamos o procedimento em seguida.

Protocolo: O atleta fica de pé em uma parede e alcança a mão mais próxima da parede. Mantendo os pés no chão, a ponta dos dedos é marcada ou gravada. O atleta então afasta-se da parede e salta verticalmente o mais alto possível usando braços e pernas para ajudar a projetar o corpo para cima. A técnica de salto pode ou não usar um contra-movimento. A diferença da distância entre a altura do alcance em pé e a altura do salto é a pontuação.

RSA

Os jogadores de futebol são submetidos a produzir repetidamente sprints máximos ou submáximos (1-7 s) com breves períodos de recuperação. Portanto, a capacidade de repetir múltiplos sprints a alta velocidade é importante para o desempenho físico do atleta. A utilização de testes que consistem em vários sprints intercaladas com breves períodos de recuperação garantem respostas fisiológicas semelhantes às que ocorrem em competição, tais como a diminuição do pH muscular, fosfocreatina e ATP.

Os testes utilizados para aferir a capacidade de repetir sprints (Repeated Sprint Ability ou RSA) medem a capacidade anaeróbia e calculam a queda relativa no desempenho do melhor para o pior sprint, dando-nos um valor correspondente ao índice de fadiga.

Protocolo

Os cones são colocados a 30 metros de distância para indicar a distância do sprint. Mais dois cones são colocados mais 10 metros ao longo de cada extremidade. Seguindo as instruções do avaliador, o atletacoloca o pé na linha de largada e, ao apito, dois cronómetros são iniciados simultaneamente. O atleta deve percorrer rapidamente a distância sem diminuir a velocidade antes de chegar à linha de final. Um cronómetro é usado para cronometrar o sprint, o outro continua a correr. O atleta usa o cone de 10 metros para desacelerar e retornar ao ponto de chegada dos 30m, que então se torna a próxima linha de partida. O próximo sprint será na direção oposta. Cada sprint de 30 metros começa 30 segundos após o início da corrida anterior. Este ciclo continua até que 10 sprints estejam concluídos. O índice de fadiga é calculado pelo tempo médio das três primeiras tentativas dividindo pelo tempo médio das três últimas tentativas. Por exemplo, se os tempos para os três primeiros sprints foram 6,9, 7,1 e 6,7 (média 6,9 segundos) e os últimos três tempos foram 7,6, 8,2 e 7,9 (média 7,9 segundos), o índice de fadiga será 6,9 ÷ 7,9 = 0,87 ou 87%.

Material

- Espaço com pelo menos 50 m

- fita métrica

- Cones

- 2 Cronómetros

 

Sprint

O sprint (relacionado com a velocidade) é uma das atividades mais importantes no futebol, embora constitua apenas entre 1 e 12% da distância total percorrida por um jogador durante um jogo (0,5 a 3% do tempo de jogo). A velocidade, assumida como capacidade que permite ao atleta executar ações motoras no mais curto espaço de tempo sem influência da fadiga, assume no futebol formas de manifestação muito variadas. Também ao nível da treinabilidade, pela especificidade que o futebol acarreta, devem ser salvaguardadas as devidas particularidades. Sabendo que a duração dos sprints mais comum num jogo é de 2-4 seg, neste ponto não iremos definir um protocolo para um teste em particular pois caberá ao treinador decidir a distância que quer testar (até porque pode estar relacionada com especificidades do modelo de jogo).  Se o objetivo passa por avaliar a velocidade de deslocamento do ponto A ao ponto B, seja num trajeto linear ou com mudanças de direção, os testes devem obedecer aos seguintes pressupostos:

- Utilizar cronometragem eletrónica (cronómetro é alternativa as células fotoelétricas porém menos preciso em distâncias curtas);

- Manter as mesmas condições em termos de calçado e piso nos diferentes momentos de avaliação (para que a comparação seja objetiva);

- Realizar o teste sempre na mesma fase do treino;

- Medir rigorosamente as distâncias;

- Efetuar no mínimo duas tentativas e registar a melhor.

Conclusão

A perspetiva sistémica, base de pensamento por detrás do projeto COACH ID, suporta-se na necessidade de relacionar ao invés de separar. Ainda assim, reconhecemos que no que concerne à estrutura condicional (ainda que nunca se manifeste de forma absolutamente independente de outras estruturas) é importante perceber a diferença entre exercitar e desenvolver. Exercitar cada uma das capacidades motoras associadas aos testes anteriormente descritos é algo que acontece em qualquer prática de campo. Porém, se o objetivo é desenvolver uma capacidade em particular, é preciso ir mais longe e estabelecer um programa específico de treino com esse propósito. Os resultados dos testes de avaliação, embora não devendo ser critério único na avaliação de um jogador, ajudam o treinador a ter uma ideia da condição atual, pelo que, de forma mais prática ou mais analítica, com maiores ou menores recursos, a sua importância não deverá ser menosprezada.

 

 

Bibliografia consultada:

- Bangsbo, Jens & Iaia, F & Krustrup, Peter. (2008). The Yo-Yo Intermittent Recovery Test: A Useful Tool for Evaluation of Physical Performance in Intermittent Sports. Sports medicine (Auckland, N.Z.). 38. 37-51.

- Krustrup, P. et al (2003) - The Yo-Yo Intermittent Recovery Test: Physiological Response, Reliability, and Validity. Medicine & Science in Sports & Exercise: April 2003 - Volume 35 - Issue 4 - p 697-705

- Haugen, T. & Seiler, S. (2015) - Physical and Physiological Testing of Soccer Players: Why, What and How should we Measure? Sportscience 19. Disponível em: www.sportsci.org

- Goral, K. (2015) - Examination of agility performances of soccer players according to their playing positions. Disponível em: http://thesportjournal.org/article/examination-of-agility-performances-of-soccer-players-according-to-their-playing-positions/

- Ndrzejewski, M. et al (2013) - Analysis of sprinting activities of professional soccer players. J Strength Cond Res 27(8): 2134–2140

- Rampinini, Ermanno & Bishop, David John & Marcora, Samuele & Ferrari Bravo, D & Sassi, R & Impellizzeri, Franco. (2007). Validity of Simple Field Tests as Indicators of Match-Related Physical Performance in Top-Level Professional Soccer Players. International journal of sports medicine. 28. 228-35. 10.1055/s-2006-924340

- Soares, J. (2008) – O treino do futebolista – volume 1. Porto Editora

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