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Liderança e Metodologia de treino: 6 lições do Mundial de Futebol 2026

Seis crónicas, uma convicção: o futebol é um sistema complexo. Liderança, método e as 6 lições do Mundial 2026, por Acácio Santos, treinador profissional.

Liderança e Metodologia de treino: 6 lições do Mundial de Futebol 2026

Seis crónicas, uma ideia: o futebol de alto rendimento continua a ser uma lição de método para quem treina, dentro e fora dos relvados.

Por Acácio Santos, treinador profissional e co-fundador da Coach ID. Síntese das crónicas publicadas no Jornal A Bola durante o Campeonato do Mundo de 2026.


Durante o Mundial de 2026, escrevi seis crónicas para o Jornal A Bola. Falei de Portugal, do Brasil, do Congo, de João Félix e de Jorge Jesus, das selecções africanas, do que vivi em Barcelona com Guardiola e Paco Seirul·lo, do que aprendi na Nigéria durante uma Taça das Nações Africanas. Os temas eram diferentes. O fio condutor era sempre o mesmo: o futebol é um fenómeno demasiado complexo para ser reduzido a quem joga melhor.

O que se segue é a síntese dessas crónicas, organizada em seis ideias que ficaram comigo depois da competição e que continuam a influenciar a forma como olho para o treino, para os jogadores e para o papel do treinador.


1. O futebol como encontro, não apenas como competição

Vivemos num tempo em que comunicar nunca foi tão fácil e compreender o outro nunca pareceu tão difícil. As redes aproximam e dividem. A política separa. Em muitos lugares, as diferenças são lidas como ameaças.

E depois chega um Mundial. Durante algumas semanas, milhões de pessoas param para ver o mesmo evento. Culturas diferentes, línguas diferentes, religiões diferentes, realidades distintas, todas ligadas pela mesma emoção.

Edgar Morin defendia que a humanidade é simultaneamente una e diversa: somos diferentes, mas pertencemos à mesma comunidade humana. O desafio não está em eliminar a diferença, mas em aprender a conviver com ela. O futebol, na sua forma mais pura, consegue fazer isto como poucos acontecimentos conseguem.

Num tempo em que tantos constroem muros, o futebol continua a construir pontes.

Não resolverá guerras nem acabará com os problemas do mundo. Mas pode recordar-nos de algo essencial: aquilo que nos une continua a ser maior do que aquilo que nos separa.


2. A era do colectivo. O Brasil de Ancelotti

Durante décadas, a selecção brasileira entrava em qualquer competição com uma vantagem invisível: a sensação de inevitabilidade. Pelé, Zico, Sócrates, Romário, Bebeto, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Kaká. Não eram apenas grandes futebolistas. Eram referências geracionais, jogadores capazes de decidir uma competição com um momento de inspiração.

Hoje, olhando para o plantel brasileiro, encontramos qualidade. Muita qualidade. Mas talvez já não encontremos a mesma concentração de génio individual.

E isso não é necessariamente uma má notícia.

A chegada de Carlo Ancelotti representa uma mudança profunda. Pela primeira vez na história, o Brasil entrega o comando a um treinador estrangeiro. E não a um treinador qualquer. Ancelotti venceu em Itália, Inglaterra, França, Alemanha e Espanha. Conquistou Ligas dos Campeões, campeonatos nacionais e algo ainda mais difícil: o respeito universal do futebol.

Num tempo em que muitos treinadores procuram protagonismo, Ancelotti sempre se distinguiu pela serenidade. Não precisa de ser a estrela. Não precisa de discursos revolucionários.

Talvez seja exactamente isso que o Brasil necessite:

  • Menos ansiedade, mais clareza
  • Menos nostalgia, mais equilíbrio
  • Menos comparação com o passado, mais equipa

Morin lembrava que os sistemas complexos não podem ser compreendidos apenas através das suas partes. O valor de um sistema depende sobretudo das relações que se estabelecem entre os seus elementos. No futebol acontece o mesmo. Nem sempre vence quem tem os melhores jogadores. Muitas vezes vence quem consegue criar as melhores ligações entre eles.

O desafio de Ancelotti não é encontrar um novo Pelé ou um novo Ronaldinho. Esses jogadores aparecem uma vez por geração, e não por decreto. O desafio é transformar talento em organização, criatividade em compromisso, individualidades em equipa.


3. Nenhum adversário é pequeno: o caso africano

Portugal iniciou o Mundial frente à República Democrática do Congo. Para muitos adeptos, estreia acessível. Para quem acompanha o futebol africano por dentro, perspectiva precipitada.

África mudou.

As selecções africanas continuam a apresentar intensidade, força física e velocidade, mas acrescentaram organização, experiência internacional e uma confiança competitiva que não existia há duas décadas. Dos 9 africanos que iniciaram o Mundial, 8 garantiram apuramento para a fase a eliminar. Não acredito que seja coincidência.

O jogo entre Nigéria e Congo, no apuramento, foi exemplo claro: o Congo teve mais posse, criou mais oportunidades, apresentou um xG (golos esperados) muito superior ao da Nigéria. Em muitos momentos foi claramente a equipa mais perigosa.

E o perfil é cada vez mais europeu:

  • Chancel Mbemba (Olympique de Marselha): capitão, referência pela experiência e personalidade.
  • Aaron Wan-Bissaka (West Ham): lateral fortíssimo no duelo individual.
  • Meschack Elia (Young Boys): ameaça constante na profundidade.
  • Arthur Masuaku (Beşiktaş): qualidade de cruzamento.
  • Noah Sadiki (Union Saint-Gilloise): inteligência e ligação entre sectores.
  • Cédric Bakambu (Real Betis): finalizador que conhece o futebol europeu.

Portugal continuou favorito, naturalmente. Mas o Congo não veio para participar: veio para competir e discutir o resultado até ao apito final. Esta é a nova realidade de quase todas as selecções africanas. E Portugal fez bem em levá-la a sério.


4. O ruído como energia: o que aprendi em Barcelona e na Nigéria

Há alguns anos tive a oportunidade de passar algum tempo dentro do FC Barcelona. Convivi com Pep Guardiola e Tata Martino. Observei de perto Messi, Xavi, Iniesta, Puyol e tantos outros talentos que marcaram uma geração.

Como treinador, procurava compreender o que diferenciava aqueles jogadores extraordinários dos restantes. Esperava encontrar respostas na técnica, na táctica, na preparação física.

Encontrei algo diferente: a capacidade de conviver diariamente com o ruído.

O ruído das expectativas. O ruído dos adeptos. O ruído dos media. O ruído da pressão para ganhar constantemente.

Uma das pessoas que mais influenciou a minha forma de pensar o treino foi Paco Seirul·lo. Tive o privilégio de aprender com ele e de construir uma relação de amizade. Entre muitas aprendizagens, uma ideia ficou comigo:

O rendimento não depende apenas da qualidade individual. Depende sim da forma como todas as estruturas do jogador e da equipa interagem perante os desafios que encontram.

Como pensam, como sentem, como comunicam, como se relacionam, como respondem à adversidade.

Anos mais tarde voltei a encontrar essa realidade com clareza na Taça das Nações Africanas de 2024. A Nigéria chegou à competição como uma das principais candidatas ao título. Jogadores de enorme qualidade, muitos protagonistas nos melhores campeonatos europeus.

O primeiro jogo terminou com um empate frente à Guiné Equatorial.

Para quem observava de fora, surgiram imediatamente as dúvidas. Críticas. Análises. Opiniões. 220 milhões de nigerianos. O ruído aumentou.

Dentro do balneário aconteceu algo diferente. Os jogadores aproximaram-se. As conversas tornaram-se mais honestas. O capitão assumiu a liderança. Pedimos mais compromisso, mais responsabilidade, mais entrega. Percebemos que não bastava ter bons jogadores. Era necessário sermos uma equipa melhor.

Não combatemos o ruído. Utilizámo-lo.

Poucos dias depois enfrentámos a Costa do Marfim, anfitriã da competição e uma das favoritas ao título. Vencemos por 1-0. A confiança cresceu. A identidade fortaleceu-se. Jogo após jogo fomos crescendo até à final.

Foi aí que percebi algo que continua a acompanhar-me enquanto treinador:

O problema nunca é o ruído. O problema é a forma como reagimos a ele.

As grandes equipas não vivem protegidas da pressão. Vivem rodeadas por ela. A diferença está na capacidade de transformar essa pressão em energia colectiva. No futebol de alto rendimento, não vence quem elimina o ruído. Vence quem aprende a transformá-lo em força.


5. A verdadeira missão do treinador: a lição de João Félix

Portugal venceu por 5-0. Os golos serão analisados. A exibição será elogiada. As estatísticas ocuparão espaço nas páginas dos jornais.

Mas enquanto observava o jogo, dei por mim a pensar noutra questão: qual é, afinal, a missão de nós, treinadores?

Ao ver João Félix jogar, lembrei-me de duas referências que influenciaram a minha forma de olhar para o futebol: Charles Darwin e Edgar Morin.

Darwin defendia que não sobrevive o mais forte nem o mais inteligente, mas aquele que melhor se adapta. Morin mostrou-nos que nenhum indivíduo pode ser compreendido isoladamente do contexto onde vive.

É exactamente isso que estamos a assistir em João Félix. Durante anos ninguém duvidou do talento. Mas muitas vezes duvidou-se do rendimento. Hoje parece evidente que o talento nunca desapareceu. O que mudou foi o contexto. Um treinador. Uma ideia. Um ambiente. Uma oportunidade para voltar a acreditar.

E aqui surge Jorge Jesus.

Uma das maiores virtudes de um treinador não é ensinar futebol. É criar condições para que o talento apareça.

Os treinadores não marcam golos, não fazem assistências, não ganham duelos. Mas ajudam os jogadores a encontrarem a melhor versão de si próprios.

Quantas vezes julgamos um jogador sem compreender o contexto onde está inserido? Morin lembrava que o todo é mais do que a soma das partes. No futebol acontece exactamente o mesmo. O rendimento não nasce apenas do jogador. Nasce da relação entre o jogador, o treinador, os colegas, a cultura do clube e o momento que atravessa.

Adaptar-se não significa mudar quem somos. Significa encontrar um ambiente onde aquilo que somos pode florescer.

Talvez seja essa a verdadeira missão de nós, treinadores:

Não mudar pessoas. Não fabricar jogadores. Criar contextos onde cada um possa revelar o melhor de si.

Por vezes, a maior vitória de um treinador não é ganhar um jogo. É devolver um jogador a si próprio.


6. O poder do sonho

Perguntam-me muitas vezes qual é a principal diferença entre o jogador europeu e o jogador africano.

Existem diferenças culturais. Existem diferenças nos percursos de formação. Existem diferenças biológicas entre indivíduos, como existem em qualquer população.

Mas a maior diferença que encontrei não foi nenhuma dessas.

Foi a dimensão do sonho.

Não digo que o sonho africano seja melhor do que o europeu. Constato apenas o que vivi. Em muitos dos jogadores com quem trabalhei, o futebol não era apenas uma profissão. Era a oportunidade de mudar a vida de uma família inteira.

Enquanto treinador de pessoas que jogam futebol, acredito que tudo começa com um objectivo. Quanto mais claro é esse objectivo, maior tende a ser o compromisso para o alcançar.

Depois entram em jogo as crenças, construídas pelos pais, pela educação, pela cultura e pelo contexto social. Umas limitam-nos. Outras potenciam-nos.

E há ainda um terceiro factor: a necessidade.

Quando o sonho está ligado à sobrevivência, à educação dos irmãos, à saúde dos pais ou à construção de uma casa, a capacidade de adaptação cresce de forma extraordinária. Foi isso que encontrei em África. Não em todos os jogadores, mas numa percentagem muito significativa. Quanto maior era a necessidade, maior era a dedicação. Quanto maior era a clareza do propósito, maior era a capacidade para suportar o sacrifício diário.

Talvez seja essa uma das explicações para o crescimento do futebol africano. Por detrás de muitos daqueles jogadores existe algo que nenhuma estatística consegue medir.

Existe um sonho.

E continuo a acreditar que poucas forças são tão poderosas como um ser humano que luta para transformar a vida de quem ama.


O que fica deste Mundial

Seis crónicas, seis histórias, uma convicção comum: o futebol de alto rendimento é um sistema complexo. Treinar bem exige mais do que organizar sessões ou desenhar esquemas. Exige:

  • Compreender o contexto em que cada jogador vive.
  • Construir relações antes de construir jogadas.
  • Transformar pressão em energia colectiva.
  • Ler o sonho de quem joga, não apenas as suas estatísticas.
  • Aceitar que o todo é sempre maior do que a soma das partes.

Foi isto que o Mundial de 2026 me lembrou. É também isto que procuramos trazer para a plataforma que construímos. Uma ferramenta pensada para quem acredita que o rendimento não é só o que acontece dentro das quatro linhas, mas tudo o que torna possível que o jogo apareça da melhor forma.


Acácio Santos é treinador profissional, com experiência em clubes europeus e na selecção da Nigéria durante a Taça das Nações Africanas de 2024. É co-fundador da Coach ID, plataforma portuguesa de gestão para treinadores de futebol.

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